terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Gente como a gente: os dilemas dos personagens de Being Human



Um vampiro, uma fantasma e um lobisomem são amigos e moram juntos em uma casa na cidade de Bristol, tentando levar uma "vida" normal. Sei que esse resumo em uma única frase pode parecer um tanto absurdo, mas é precisamente disso que trata a série britânica Being Human.

Unindo de forma bastante peculiar o drama e a comédia aos elementos sobrenaturais, a série criada por Toby Whithouse oferece uma abordagem original de temas já bastante explorados pela literatura, pelo cinema e pela televisão. Exibida entre os anos de 2008 e 2013 pelo canal BBC Three, Being Human tem como grande mérito conseguir falar ao público jovem sem soar infantilizada e sem cair na chatice do politicamente correto. Através das desventuras de Mitchell (Aidan Turner), Annie (Lenora Crichlow) e George (Russell Tovey) podemos refletir sobre o que nos torna humanos.

* O comentário abaixo contém spoilers. Recomendo assistir aos episódios antes de ler.

Recentemente, quando fiz minha assinatura do Netflix, a ideia inicial era acabar de ver Narcos e assistir às outras séries exclusivas do serviço, especialmente Demolidor e Orange Is The New Black. Mas eu tenho uma queda por séries britânicas - que, uma pena, não são tantas no Netflix - e estas foram as que eu fui buscar primeiro. Foi então que me apareceu Being Human, sobre a qual já tinha ouvido falar, mas nunca tinha conseguido assistir - obviamente, após ver Poldark, saber da presença de Aidan Turner na série, ainda mais interpretando um vampiro, foi uma grande motivação.

Como nos últimos anos as coisas andam meio estranhas para vampiros, lobisomens e outros seres sobrenaturais na cultura pop, comecei a ver Being Human temendo ser mais um produto para fisgar adolescentes e subestimar nossa inteligência com um discurso moralista e antissexual. Porém, logo percebi que a pegada da série, felizmente, era outra. Basicamente, pode-se dizer que Being Human acerta em tudo o que a saga Crepúsculo erra.


A história começa in medias res, isto é, com os três personagens principais já morando juntos há certo tempo, dada a sua intimidade - até vemos rapidamente a chegada de Mitchell e George na casa na sequência inicial do primeiro episódio, mas como chegaram ali só é explicado no fim da temporada. John Mitchell, o vampiro, e George Sands, o lobisomem, trabalham em um hospital, como faxineiro e maqueiro, respectivamente. Ao se mudarem para Bristol, eles alugaram a casa de Owen (Gregg Chillin). O que descobriram ao chegar lá é que o imóvel não estava vazio: a noiva de Owen, Annie Sawyer, que havia morrido na casa, continuava a habitar o lugar, agora como fantasma. Como também são criaturas sobrenaturais, Mitchell e George conseguem ver Annie.


E as coisas vão se complicando. Em sua convivência com Mitchell e George, Annie parece ganhar um sentido para a sua permanência na Terra e vai se fortalecendo, tornando-se visível para pessoas comuns e podendo destruir objetos (uma poltergeist). George acredita que como seu "problema" é esporádico conseguiria conciliar seu lado humano e seu lado lobo e, então, tentando seguir a vida, começa a namorar Nina (Sinead Keenan), uma enfermeira do hospital. Mitchell, por sua vez, faz a opção de se manter "limpo" e deixar de morder pessoas (ok, nem sempre ele consegue, mas resiste bravamente). Isso, aliado ao fato de viver com um lobisomem, causa a ira da vampirada local.

Se já é difícil conceber como seria para um ser de características fantásticas tentar viver como uma pessoa comum na Inglaterra contemporânea, imagine-se três dessas criaturas convivendo diariamente. Como qualquer pessoa de vinte e poucos anos (certo, Mitchell tem centenas de anos, mas aparenta isso), eles tentam sobreviver na cidade, trabalhando para pagar as contas e dividindo suas angústias. A diferença é que, muitas vezes, nossos heróis se veem obrigados a enfrentar seus semelhantes em prol de sua escolha pela humanidade.


Entre a vida e morte

Being Human em sua primeira temporada, que é a que tomo como referência nesse texto, não apresenta uma abertura. O início de cada um dos seis episódios, porém, traz um recurso narrativo interessante, que é uma espécie de prólogo. Narrado por um dos três personagens principais, o prólogo indica as principais linhas de força do episódio e traz uma reflexão sobre temas que se ligam ao que seria próprio do ser humano, como o amor, o medo da morte, a dor, o desejo de aceitação.

O prólogo do primeiro episódio, narrado por Annie, apresenta os personagens e aborda sua relação com a morte, temática explorada ao longo de toda a série, sob diferentes aspectos. Assim, Annie, que deveria morrer idosa, acabou tendo sua vida interrompida precocemente e, por isso, não conseguiu "partir" de vez, ficando com algo não resolvido que a prende na Terra. Já para Mitchell, que deveria ter falecido como um herói no campo de batalha, mas foi mordido por um vampiro, a morte foi apenas o início de uma vida eterna. George, por sua vez, ao ser atacado por uma fera, deveria ter morrido, mas, sobrevivendo, foi "infectado" pela maldição da licantropia.


Se a condição de Annie e Mitchell é constante em suas existências, é presente em tempo integral (Annie é fantasma todo o tempo, assim como Mitchell não pode deixar de ser vampiro), a de George se manifesta a intervalos (a cada lua cheia) e o faz perder a consciência de seus atos. Por outro lado, Annie e Mitchell estão no plano da eternidade, não envelhecem, enquanto para George o tempo continua a passar. Daí porque George sente uma maior dificuldade em aceitar sua condição - no início, quase que como Dr. Jekyll, ele se refere ao lobisomem como um outro, como se não fosse ele próprio.

Buscando conexões

Outro prólogo bem interessante é o do quarto episódio, narrado por Mitchell e centrado na necessidade de pertencermos a um grupo e de conhecermos a nós mesmos. Mitchell escolheu os humanos, deixou de ser leal aos vampiros, mas ele percebe que em nenhum dos lados há perfeição, pois os humanos também podem ser muito cruéis e destrutivos, julgando e condenando o próximo sem procurar compreendê-lo.


Essa ideia de pertencimento, de estar conectado a algo maior, a uma "tribo", permeia toda a série. É assim que, no segundo episódio, George encontra em Tully, que também é lobisomem, alguém com quem possa partilhar a dor de sua terrível dádiva, e chega a jogar um pouco pra escanteio Annie e Mitchell. Annie também encontra um amigo fantasma, Gilbert (Alex Price), que lhe é apresentado por Mitchell, e passa a sair de casa. Gilbert, morto desde 1985, é um fã de The Smiths, Echo & The Bunnymen e várias outras boas bandas oitentistas e Annie o ajuda a fazer a "passagem" para o outro plano.

Já com Mitchell, a situação parece ser ainda mais complexa. Em sua inserção na comunidade, Mitchell se aproxima do garoto Bernie, o que se desdobrará em um grande mal-entendido e o fará se questionar se vale mesmo a pena se preocupar com as pessoas. Há ainda seu relacionamento conturbado com Lauren (Annabel Scholey), que ele transformou em vampira, e com o grupo de vampiros, liderado por Herrick (Jason Watkins).


Herrick, que vampirizou Mitchell séculos atrás, parece ter com este uma relação quase paternal. Mitchell não compactua com Herrick e os outros vampiros na tentativa de dominar o mundo e o chefe dos vampiros tenta a todo custo levá-lo de volta ao lado negro da força (e quase consegue). É curioso como mesmo sendo um outsider e preferindo o lobisomem e a fantasma em lugar dos seus, Mitchell é respeitado pelos vampiros, que mantêm uma espécie de sociedade secreta, estando infiltrados em diversas instituições, como a polícia.

A necessidade de amar


Na música "How Soon Is Now?", dos Smiths, Morrissey canta "I am human and I need to be loved./ Just like everybody else does". A necessidade humana de amar é um dos principais pontos abordados em Being Human. Como quaisquer outros humanos, nossos entes sobrenaturais favoritos são movidos pelas paixões.

George se apaixona por Nina, mas precisa esconder dela seu segredo. Annie, mesmo morta, continua amando o noivo Owen, até descobrir que ele não é exatamente da forma como se lembrava. E Mitchell se sente culpado pelo que fez a Lauren, mas não consegue amá-la. Uma antiga paixão sua, Josie, reaparece ao final da temporada e o faz refletir sobre o que realmente é importante para ele.

O que virá por aí?

Being Human é tão envolvente que temos vontade de assistir a um episódio atrás do outro. O último episódio deixou vários ganchos para a segunda temporada: como ficará a sociedade dos vampiros? O que acontecerá com Nina e George? O que prende Annie ao plano terreno, mesmo após descobrir a causa de sua morte? Quem é o doutor misterioso que aparece para Owen? E o que mais me intrigou no season finale foi: o que Annie contou a Owen sobre a morte?


Espero que as próximas temporadas mantenham a qualidade dessa primeira. A série inglesa fez tanto sucesso, que logo ganhou um remake nos Estados Unidos, pelo canal SyFy. O detalhe: nos EUA, o nome do vampiro é Aidan, uma clara referência ao ator Aidan Turner. Confira no player abaixo o trailer da primeira temporada de Being Human (UK).


Mais informações:

2 comentários:

  1. Gostei dessa postagem. Parabéns pelo blog. Seja bem vindo(a) ao diHITT. Se tiver um tempo, conheça o meu blog também.
    http://www.paulofabricio.com.br/

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    1. Obrigada pela visita e pelo comentário, Paulo! Abs.

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